REVISÃO DO ESTATUTO DE PROTEÇÃO DO LOBO NA UE

“A concentração de alcateias de lobos em algumas regiões europeias tornou-se um perigo real para o gado e, potencialmente, também para os seres humanos. (…) Precisamos de atualizar as informações e dados relativamente a esta espécie, para que possamos tomar outras decisões, como seja rever o estatuto de espécie protegida.”, salientou, em comunicado a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Perante as declarações supracitadas, que tiveram ampla divulgação nacional e internacional, a Plataforma loboIberico.pt gostaria de esclarecer vários aspetos, tendo por base informação cientifica:

  • As declarações da Presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, traduzem informação pouco fundamentada, possivelmente motivada por uma reação ao facto de, e como avançam alguns jornalistas, em setembro de 2022 o seu pónei de estimação ter sido morto por um lobo (1). Certamente terá sido uma perda emotiva, mas para prevenir estas situações há que assegurar a proteção dos animais que tanto estimamos, particularmente em áreas com presença confirmada de lobo, em vez de avançar para a revisão do estatuto de proteção da espécie, contrariando a política defendida pela União Europeia no que diz respeito à conservação deste grande predador.

  • O lobo não representa um perigo para o ser humano nas paisagens humanizadas da Europa, não existindo casos confirmados de ataques a pessoas, nomeadamente em Portugal. Os escassos registos mundiais de lobos em liberdade que demonstram um comportamento agressivo para com humanos resultam de animais doentes (p.ex. com raiva, uma doença neurológica atualmente erradicada em Portugal) ou que se encontravam encurralados, sem possibilidade de fuga (2).

  • Apesar dos ataques de lobo a animais domésticos (gado e cães) serem uma realidade, nomeadamente em áreas com escassez de presas silvestres, como acontece em Portugal, esse risco pode ser reduzido se gado estiver devidamente protegido. A aplicação de práticas adequadas de maneio (3) e proteção do gado (4), permitem diminuir o número de ataques de lobo, tal como demonstrado em várias regiões da Europa e em Portugal, nomeadamente no Nordeste Transmontano. Para além de métodos tradicionais, como o uso de cães de gado e vedações, existem métodos mais recentes e inovadores que previnem os ataques e possibilitam a coexistência. Mas para que isso seja uma realidade é necessário haver apoios técnicos e financeiros e, claro, vontade de todos – incluindo dos executivos nacionais e comunitários – para os implementar.

  • Em Portugal o lobo é uma espécie protegida por lei desde 1988 e classificada em Perigo de Extinção, devido ao reduzido número de fêmeas reprodutoras por ano (<60)e área de ocorrência (< 20.000 km2), sem sinais de expansão nas últimas três décadas, assim como uma elevada incidência de mortalidade por causas humanas e crescentes perturbações nas suas áreas de reprodução e refúgio (5). Assim, não há qualquer possibilidade de se realizarem controlos populacionais de lobo em Portugal. Além disso, vários estudos a nível mundial (p.ex. Treves et al., 2016; https://doi.org/10.1002/fee.1312) demonstram que o abate pontual de lobos não conduz necessariamente a uma redução do número de ataques ao gado, a médio e longo prazo, podendo mesmo ter um efeito contrário devido à destabilização das alcateias e aumento do número de lobos solitários, o que poderá promover o ataque a presas mais vulneráveis, como os animais domésticos quando não estão devidamente protegidos. Sendo o lobo uma espécie de topo na cadeia alimentar, a sua proteção tem efeitos importantes no ecossistema, permitindo a salvaguarda de habitats e paisagens beneficiando várias outras espécies que neles vivem, incluindo o Homem, contribuindo ainda para a promoção turística de zonas rurais economicamente desfavorecidas. A diminuição da proteção ao lobo no âmbito da União Europeia seria um retrocesso, não só para a conservação deste carnívoro, mas também para a conservação da natureza. A coexistência com o lobo – e outros grandes predadores – nem sempre é fácil, mas é possível, existindo bastantes exemplos disso, não apenas em Portugal, mas um pouco por toda a Europa. Torna-se por isso importante informar e esclarecer, evitando propagar ideias erradas sobre o lobo e, sobretudo, continuar a promover medidas que permitam conciliar a presença deste carnívoro com as atividades humanas, em vez de colocar o foco na perseguição da espécie.

Referências:

  1. https://europediplomatic.com/2022/09/02/wolf-attacked-ursula-vd-leyens-pony
  2. https://www.loboiberico.pt/o-lobo/mitos-e-crencas-explicados
  3. https://www.loboiberico.pt/lobo-iberico/boas-praticas-pecuarias-em-area-de-lobo
  4. https://www.loboiberico.pt/lobo-iberico/medidas-de-protecao-do-gado/
  5. https://www.loboiberico.pt/lobo-iberico/distribuicao-e-numero

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