PRINCIPAIS AÇÕES DE CONSERVAÇÃO E INVESTIGAÇÃO

Em Portugal, os estudos de investigação sobre o lobo para suportar medidas de conservação foram iniciados na década de 1970. Contudo, até ao início da década de 1980, a informação científica era ainda bastante escassa, consistindo no estudo de coleções museológicas e na recolha de informação geral sobre a distribuição da espécie e sobre a predação  do gado. Os resultados desses trabalhos  tornaram evidente um declínio acentuado da área de distribuição do lobo em todo o país, evidenciando a necessidade de se iniciarem  projetos que aprofundassem o conhecimento da  ecologia e as necessidades de conservação da espécie. 

Deste modo, em 1982, iniciou-se  um estudo pioneiro a nível europeu envolvendo a captura e rádio-seguimento de lobos na região de Bragança (no Nordeste de Portugal). Os  dados obtidos permitiram obter as bases científicas que conduziram à proteção legal do lobo e à sua classificação como espécie “Em Perigo” – o estatuto  de ameaça mais elevado.

Com efeito, o lobo é a única espécie animal protegida por legislação nacional específica – a Lei de Proteção do Lobo-Ibérico (Lei 90/88, de 13 de agosto de 1988)

Na sequência da criação desta lei, que proibia a detenção de lobos, em 1987 é criado o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, gerido pelo Grupo Lobo, para receber lobos em situação de cativeiro ilegal, dando-lhes um ambiente de cativeiro adequado. Como santuário que é, o Centro recebe lobos que não podem viver em liberdade, nomeadamente, animais vítimas de armadilhas, de cativeiro ilegal e outros, oriundos de parques e jardins zoológicos que, por razão diversa, deixarma de ter condições para manter alguns dos animais.

Espaço do Grupo Lobo – Mafra. Foto: Tess/Grupo Lobo

Os lobos que vivem no Centro são embaixadores dos lobos na Natureza e têm um papel muito importante na informação e sensibilização do público para a necessidade de conservação da espécie. Os lobos do Centro são ainda objeto de vários estudos, permitindo conhecer melhor a bioecologia e o comportamento da espécie.

A partir da década de 1990, verifica-se um notável aumento dos estudos científicos e das ações de conservação direcionadas ao lobo em Portugal. Muitos destes estudos são realizados no âmbito do Programa Signatus, uma estratégia de conservação da espécie, definida em 1987 pelo Grupo Lobo. Esta associação não governamental, criada em 1985 com o objetivo de contribuir para a conservação do lobo-ibérico e do seu ecossistema em Portugal, promove, em parceria com a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, um grande número de estudos, das mais variadas áreas do conhecimento (da ecologia, à genética, passando pela etnografia e dimensão humana), e de projetos de conservação aplicada. Estas ações pretendiam colmatar a grande necessidade que existia de informação rigorosa sobre a espécie  de forma a contrariar as principais causas de ameaça e a  tendência regressiva  que ameaçava as populações da espécie em Portugal.

Logotipo Projecto Signatus. Fonte: Grupo Lobo

Mais recentemente, várias instituições académicas têm vindo a desenvolver projetos de investigação focados neste carnívoro. Entre elas destaca-se o CIBIO/InBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, que implementa desde 2006 uma linha de investigação em genética populacional e vários projetos de monitorização populacional a longo prazo (recorrendo, nomeadamente,  à  ao seguimento de lobos por telemetria GPS e à  genética não-invasiva, com base principalmente em excrementos.

Lobo capturado e anestesiado para colocação de coleira GPS e posterior seguimento por telemetria. Foto: Mónia Nakamura

O ICNF é a entidade governamental responsável pela gestão e conservação do lobo em Portugal, e, desde 1990,  tem a funcionar um sistema de vistorias no terreno para verificação dos ataques a animais domésticos atribuídos ao lobo, bem como a avaliação e atribuição das indemnizações correspondentes que estãodeterminadas pela legislação de proteção do lobo. 

Também desenvolve esforços para a gestão do habitat do lobo, em particular na rede nacional de áreas classificadas (Áreas Protegidas e Sítios da Rede Natura 2000), as quais abrangem cerca de 30% da área de distribuição deste carnívoro. Além disso, promoveu três censos populacionais da espécie, à escala nacional (em 1994/96, 2002/2003 e 2019/2021), em colaboração com ONGs de Ambiente, empresas e instituições académicas. 

De 1994 a 2010 o Parque Natural de Montesinho (ICNF) desenvolve uma ação de apoio aos produtores de gado do Distrito de Bragança. Este apoio, que consistiu na entrega de cachorros da raça Cão de Gado Transmontano a produtores de ovinos e caprinos,  destinou-se a melhorar a proteção dos rebanhos, ajudando a diminuir os conflitos que resultam da predação do lobo sobre o gado.

Entrada no Parque Natural de Montesinho (Bragança). Foto: Bruno Arrojado

Dois anos mais tarde o Grupo Lobo estabelece o Programa Cão de Gado, concretizando uma proposta inicialmente delineada em 1987. Este Programa que atua em toda a área de distribuição do lobo, pretende contribuir para a conservação do lobo-ibérico em Portugal através da recuperação e promoção da utilização de todas as raças nacionais de cães de gado como uma forma eficaz de proteger rebanhos ou manadas. Para além da entrega de cães este Programa prevê ainda vários níveis de apoio aos produtores de gado. Para além da monitorização regular dos cães e do apoio técnico na sua criação e gestão o Programa fornece alimento e presta todos os cuidados veterinários até os cães atingirem a maturidade (2 anos de idade), altura em que é avaliada a sua eficácia. 

Ambas as iniciativas pretenderam contribuir, também, para a recuperação e valorização das raças nacionais de cães de gado, muitas delas também ameaçadas, tendo o Parque Natural de Montesinho contribuído, inclusivamente, para o reconhecimento do Cão de Gado Transmontano em 2012.

Em 1999 o ICNF implementa o “Sistema de Monitorização de Lobos Mortos” com o objetivo de registar de forma sistemática a ocorrência de lobos mortos a nível nacional. Este sistema permitiu  um maior conhecimento das causas de morte do lobo e garantiu o acesso a material biológico essencial ao desenvolvimento de muitos estudos científicos. 

Nos últimos anos, um número crescente de outras entidades, tanto públicas  como privadas, têm vindo a desenvolver iniciativas em prol da conservação deste carnívoro, tais como: censos e monitorização dos impactos ambientais sobre a população lupina, minimização de ataques ao gado, restauro do habitat e de fomento das  presas silvestres do lobo, sensibilização ambiental e valorização turística da espécie e do património cultural a ela associada como motor para o crescimento económico do mundo rural.

Destaca-se a criação, em 2000, pela Associação Transumância e Natureza, da Reserva da Faia Brava (a primeira área protegida privada do país), localizada na região da Beira Interior, com a finalidade de proteger os valores naturais da região, incluindo o lobo-ibérico e as suas presas naturais.

Logotipo Reserva Faia Brava. Fonte: Reserva Faia Brava

Seis anos mais tarde, em 2006,  é criada a ACHLI, uma associação sem fins lucrativos, constituída maioritariamente por empresas relacionadas com a implementação de projetos eólicos. Esta associação tem por missão contribuir para a conservação do habitat do lobo-ibérico, nomeadamente numa perspetiva de aplicar e monitorizar medidas de minimização e compensação de impactes direcionadas ao lobo e que contribuam para dar resposta às obrigações legais dos seus associados. Em particular, a ACHLI gere um fundo monetário, o Fundo do Lobo, resultante de contribuições decorrentes de medidas compensatórias dos seus associados, com a finalidade de desenvolver projetos de gestão e conservação do habitat do lobo-ibérico em duas principais áreas de intervenção: Alto Minho e Sul do rio Douro. Esta original abordagem envolve gestão florestal e cinegética, reintrodução do corço e de outras presas silvestres, para além do apoio ao Programa Cão de Gado, para melhorar a proteção do gado e diminuir o impacto do lobo nos animais domésticos, e ações de sensibilização, numa ótica de compensação ecológica integrada pouco comum em Portugal, mas com crescente reconhecimento a nível internacional.

Logotipo da ACHLI. Fonte: ACHLI

São também de destacar as ações da Rewilding Portugal, criada em 2019, que promove a renaturalização do Grande Vale do Côa (através da melhoria do habitat e do fomento de presas silvestres do lobo), mas desenvolve também ações similares em toda a região a sul do Rio Douro, para além do apoio aos produtores de gado, na melhoria da proteção dos animais domésticos e da valorização dos produtos locais.

Logotipo Rewilding Portugal. Fonte: Rewilding Portugal

Do ponto de vista digital foram criadas várias iniciativas, destacando o Grupo de Facebook LOBO IBÉRICO e o Instagram loboiberico.pt que tem como base a sensibilidade para a coexistência pacífica e facultar conteúdo cientificamente correto.

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