PRESAS DO LOBO

Em Portugal, as principais presas naturais do lobo, os grandes ungulados selvagens,  encontram-se representados por quatro espécies:  o javali (Sus scrofa), o corço (Capreolus capreolus), o veado (Cervus elaphus) e a cabra-montês (Capra pyrenaica). Na região de Castelo Branco existem também populações introduzidas de muflão (Ovis aries) e de gamo (Dama dama) mas estão maioritariamente  confinadas para fins cinegéticos, sendo ainda pouco numerosas e acessíveis ao lobo.

Devido à humanização da paisagem, à destruição das florestas nativas e, sobretudo, à caça excessiva, os ungulados silvestres encontravam-se extintos ou muito localizados no território Português desde o início do século XX. Nas últimas décadas as populações destas espécies têm vindo a recuperar fruto da expansão natural das populações residuais Espanholas  e dos esforços de reintrodução de projetos com fins cinegéticos ou de conservação. Assim, os ungulados silvestres têm aumentado a sua área de distribuição em Portugal, recuperando parte do território que ocupavam antigamente.

Na atual área de ocorrência do lobo em Portugal, o javali é o único ungulado selvagem com uma distribuição generalizada e densidades mais elevadas (> 1 indivíduo/km2), em resultado de uma notável recuperação e expansão da população nos últimos 50 anos.  O corço também sofreu uma expansão progressiva da área de distribuição nas últimas décadas, principalmente no interior norte e centro do país, apesar de apresentar densidades muito reduzidas (< 1 indivíduo/km2) na maior parte da área de ocorrência. O veado e a cabra-montês apresentam populações bastante localizadas mas abundantes e em ligeira expansão, nomeadamente na região do Parque Natural de Montesinho (veado) e do Parque Nacional da Peneda-Gerês (ambas as espécies).

Javali (Sus scrofa)

Javali - Tapada de Mafra (Mafra). Foto: Bruno Arrojado

Javali predado por lobos – Serra da Cabreira (Cabeceiras de Basto). Foto: Ismael Cunha

O javali (ou porco-bravo) é uma espécie de suídeo de grande porte, com comprimento máximo de 170 cm, altura máxima ao garrote (altura até ao dorso) de 69 cm e um peso máximo de 140 kg. Espécie com dimorfismo sexual acentuado, semelhante ao porco doméstico mas com mais pêlo e um focinho mais comprido. De hábitos crepusculares e principalmente noturnos passa o dia refugiado dentro de silvados e matos espessos. Ungulado com uma dieta omnívora,  podendo alimentar-se de praticamente qualquer coisa (nomeadamente de crias de outros ungulados, selvagens ou domésticos), mas sendo sobretudo herbívoro. 

Trata-se de um dos mamíferos mais adaptáveis da fauna Portuguesa, sofrendo uma notável expansão da área de ocorrência durante as últimas décadas e sendo atualmente abundante de norte a sul do país, nomeadamente junto dos grandes centros urbanos. 

Evolução da distribuição do javali em Portugal, desde a década de 1970 Fontes: Fonseca & Correia (2008), Vingada et al. (2010)

Corço (Capreolus capreolus)

Corço – Nordeste Transmontano (Bragança). Vídeo: Bruno Arrojado

Corço – Parque Nacional da Peneda-Gerês. Foto: Ricardo Brandão

O corço é uma espécie de cervídeo, de pequeno porte, com comprimento máximo de 145 cm, altura máxima ao garrote de 83 cm e de peso máximo de 30 kg, nariz e lábio superior maioritariamente negros, em contraste com o lábio inferior branco, e um distintivo escudo anal branco. A cor da sua pelagem varia ao longo do ano sendo castanha-avermelhada no verão e cinzenta no inverno. Os machos possuem hastes e umescudo anal branco em forma de rim (reniforme), enquanto que as fêmeas não têm hastes e apresentam um escudo anal branco em forma de coração (cordiforme).

É o cervídeo em Portugal  com atividade mais diurna embora seja maioritariamente crepuscular e noturno. Alimenta-se essencialmente de plantas herbáceas e lenhosas e, não é uma espécie estritamente florestal, ocupando todo o tipo de habitats terrestres, nomeadamente áreas abertas e matagais. 

Durante as últimas décadas, as populações de corço têm vindo a expandir-se naturalmente em Portugal, colonizando grande parte da sua área de ocorrência original a norte do rio Douro. Apesar de um progressivo aumento na área ocupada pela espécie, geralmente ocorre ainda de forma localizada e com reduzida  abundância. Na região a sul do rio Douro, esta espécie tem vindo a ser reintroduzida, no âmbito de iniciativas destinadas à conservação do lobo.

Nos últimos 50 anos a espécie tem vindo a expandir-se em Portugal reocupando parte da sua antiga área de distribuição natural. O aumento progressivo da área ocupada pela espécie tem sido acompanhado, também, por um aumento generalizado da sua abundância. Este facto tem-se revelado de especial importância para a conservação do lobo-ibérico no nosso país uma vez que o corço é a presa silvestre preferencial desta espécie em Portugal

Evolução da distribuição do corço em Portugal, desde a década de 1970 Fontes: Salazar (2009), Vingada et al. (2010)

Veado (Cervus elaphus)

Veados - Parque Natural de Montesinho (Bragança). Foto: Bruno Arrojado

Veado predado por lobos – Parque Natural de Montesinho (Bragança). Foto: Lemuel Silva

O veado é a maior espécie de cervídeo presente atualmente em Portugal, com comprimento máximo de 220 cm, altura máxima ao garrote de 140 cm e peso máximo de 250 kg. Tal como o corço,  regista crescimento e queda anual das hastes. A sua pelagem é de cor castanha-avermelhada durante o final da primavera / verão e é de cor castanha-escura o resto do ano. Apresenta um  escudo anal bege, característico desta espécie . A pelagem das crias é tipicamente pintalgada de branco durante os primeiros 2-3 meses de vida.

O veado habita os  ecótonos de transição entre o bosque e as zonas abertas. Espécie herbívora alimentando-se tanto de plantas herbáceas como de plantas lenhosas, como  árvores e arbustos. 

Durante as últimas décadas, as populações de veado têm vindo a expandir-se em Portugal, através de colonização natural  ou de reintroduções para fins cinegéticos, sendo ainda bastante localizado no interior da área de ocorrência do lobo, à excepção do Parque Natural de Montesinho (Bragança).

Evolução da distribuição do veado em Portugal, desde a década de 1970 Fontes: Salazar (2009), Vingada et al. (2010)

Cabra-montês (Capra pyrenaica)

Cabra-montês (Castro Laboreiro). Foto: Francisco Álvares

Cabra-montês predada por lobos – Pitões das Júnias (Montalegre). Foto: Paulo Costa

A cabra-montês é uma espécie de bovídeo  endémica da Península Ibérica. É muito similar à cabra doméstica, sendo no entanto substancialmente maior, com comprimento máximo de 148 de cm, altura máxima de 84 cm e com peso máximo de 90 kg. Ambos os sexos possuem cornos, que são bastante maiores nos machos, pelagem castanho-grisáceo, ventre branco e membros negros na parte anterior. 

Espécie especialmente adaptada à vida em rochedos nas zonas de média e alta montanha, nomeadamente apresentando cascos com rebordo duro e cortante e almofadas antideslizantes. Pouco exigente em termos alimentares mas com clara preferência pelas plantas lenhosas.

A cabra-montês tornou-se extinta em Portugal durante o final do século XIX. Em 1997 foi reintroduzida na vertente Espanhola da serra do Gerês, e através da dispersão natural, os primeiros exemplares foram detetados no nosso país, em 1999. Atualmente, a sua distribuição permanece restrita ao Parque Nacional da Peneda-Gerês, mas tem vindo a aumentar em número e em área de distribuição.

Evolução da distribuição da cabra-montês em Portugal, desde 2003 Fonte: Fernandes (2013), Moço et al. (2006)

Efetivo pecuário

Na maior parte da atual área de ocorrência do lobo existe um número muito elevado de animais domésticos criados  em regime extensivo. As populações destas espécies são mantidas em densidades muito superiores às dos ungulados silvestres. 

Tendo em conta  a reduzida diversidade e densidade das suas presas naturais, a maioria das alcateias é obrigada a alimentar-se destas populações de ungulados domésticos, como as cabras, as ovelhas, as vacas ou os equídeos (cavalos e burros).

Assim, as  espécies domésticas constituem a base da alimentação do lobo há várias décadas, motivando um conflito com as comunidades pastoris. Para mitigar este conflito, torna-se necessário promover uma estratégia concertada para assegurar uma proteção adequada do gado e o incremento das populações de ungulados selvagens.

Distribuição e abundância das principais presas domésticas do lobo nos concelhos que abrangem a área de presença potencial de lobo. Fonte: Álvares et al., (2015)

Fontes:
Álvares et al. (2015) Situação de referência para o Plano de Ação para a Conservação do Lobo-Ibérico em Portugal. ICNF/CIBIO-INBIO/CE3C/UA. Barroso & Rosa (1999) O veado. João Azevedo Editor. Fernandes (2013) Monitorização da cabra‐montês Capra pyrenaica victoriae no Parque Nacional Peneda‐Gerês. Universidade de Aveiro.
Fonseca & Correia (2008) O javali. João Azevedo Editor.
Moço et al. (2006) The ibex Capra pyrenaica returns to its former Portuguese range. Oryx 40(3), 351‐354.
Salazar (2009) Distribuição e estatuto do veado e corço em Portugal. Universidade de Aveiro. Sanz &
Turón (2018) Guía de mamíferos terrestres. Península Ibérica y Baleares. Edições PRAMES.
Vingada et al. (2010) Ungulates and their management in Portugal. In: Apollonio, Andersen & Putman (Editores). European ungulates and their management in the 21st century. Cambridge University Press.
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