BOAS-PRÁTICAS PECUÁRIAS EM ÁREA DE LOBO

A predação do lobo sobre os animais domésticos é um dos principais motivos de conflito com a espécie. Ocorre com maior frequência nos territórios onde as suas presas silvestres são raras, nomeadamente na maior parte da área de distribuição do lobo a nível nacional, onde o lobo depende do gado para sobreviver.

Para além das evidentes perdas económicas, que no limite podem determinar o fim de algumas explorações pecuárias, os ataques ao gado contribuem para reforçar a atitude negativa das comunidades rurais face ao lobo. Ajudar os produtores pecuários a adequar o maneio e a proteção do gado à presença de lobo é, por isso, fundamental para se atingir uma coexistência mais pacífica e sustentável. 

O gado e o lobo ocorrem em território nacional desde há milhares de anos e a presença do predador é uma realidade com que muitos  produtores pecuários sempre tiveram que lidar, tendo, inclusive, levado ao desenvolvimento de práticas e de métodos para melhor proteger o gado.  Porém, nas áreas onde o lobo desapareceu ou se tornou menos presente, as práticas de convivência foram-se progressivamente perdendo, e o maneio e as medidas de proteção do gado deixaram de ter em consideração a presença deste predador. 

Nestas regiões, quando o lobo regressa após vários anos de ausência, ou quando o seu número aumenta, a falta de proteção do gado facilita os ataques do lobo contribuindo  para o aumento do conflito com o ser humano, uma situação que dificulta e compromete a expansão e recuperação da espécie a nível nacional. 

Vacas em pastoreio extensivo não vigiado – Parque Natural da Peneda-Gerês: Foto: Carina (@raparigacaminhante)

É importante perceber que os objetivos de conservação do lobo pressupõem o aumento da população lupina em regiões onde existem condições ecológicas para tal e a sua futura expansão para regiões de onde havia desaparecido. A grande capacidade de adaptação e de dispersão do lobo (podendo deslocar-se desde algumas centenas até mais de mil quilómetros) facilita esse processo de recolonização natural, que ocorre não apenas perto dos limites da área de distribuição da espécie, mas por vezes em regiões bastante longe da sua área de presença regular. 

Por outro lado, em regiões onde os lobos estão ausentes é frequente existirem cães vadios e/ou assilvestrados e maior número de pequenos predadores, que seriam naturalmente controlados pelo lobo se este estivesse presente. Tal como o lobo, estas espécies podem causar prejuízos consideráveis no gado, mas os seus danos não são indemnizados pelo Estado.

Assim, a melhor estratégia será sempre investir na prevenção dos ataques, diminuindo ativamente os prejuízos e a necessidade de recorrer às indemnizações pagas pelo ICNF – sendo que estas estão cada vez mais limitadas e condicionadas, nomeadamente, também ao uso de medidas de proteção do gado. A aplicação de medidas que previnem os ataques, como o maneio e a a proteção adequada do gado, podem reduzir de forma muito eficaz  os danos causados pelo lobo e, consequentemente, aumentar a produtividade das explorações pecuárias.  Este investimento é de maior importância no caso de produtores com gado em pastoreio extensivo, que devem informar-se sobre os apoios financeiros existentes e sobre quais as medidas mais adequadas para proteger o gado e para reduzir o risco de predação.

Rebanho de cabras vigiadas por pastor e protegidas por cães de gado. Foto: Grupo lobo

Em seguida, sugerem-se boas-práticas que poderão auxiliar os produtores pecuários nesse esforço. 

  • O maneio deve ser adequado ao tipo de produção de gado, às características das pastagens e ao risco de predação pelo lobo. Além disso, há medidas muito eficazes para prevenir os ataques de lobo que podem ser adotadas na maioria dos casos (e idealmente em conjunto). Algumas medidas são indispensáveis para ter direito à indemnização dos danos em caso de ataque por lobo

  • Os animais devem estar bem identificados, com marcação adequada e em boas condições físicas e sanitárias. Animais mais fracos, doentes, fêmeas prestes a parir ou com crias paridas, devem ser mantidos onde estejam melhor protegidos.

  • Dar preferência a animais de raças autóctones ou provenientes de áreas onde existe lobo, pois estão melhor adaptados às condições locais e habituados a defender-se deste predador.

  • O confinamento noturno é fundamental, pois é à noite que os lobos estão mais ativos e são mais eficazes a caçar.

  • As vedações (de rede metálica ou elétrica, móveis ou fixas) devem ser bem construídas e mantidas e devem cumprir os  requisitos mínimos de proteção de forma a funcionarem como uma barreira eficaz à entrada dos lobos.

  • Os cães de proteção do gado, de raças adequadas e corretamente educados e mantidos, podem ajudar a proteger o gado de forma eficaz, adaptando-se facilmente a diferentes situações de maneio, nomeadamente com  espécies pecuárias diferentes. O Cão de Castro Laboreiro, Cão de Gado Transmontano, Cão da Serra da Estrela e o Rafeiro do Alentejo são exemplos de raças nacionais, tradicionalmente selecionadas para essa função. 

  • A presença do pastor junto ao gado contribui de forma eficaz para a redução de ataques por parte dos predadores. Os lobos preferem evitar os humanos e atacar quando o pastor está ausente. Além disso, o pastor tem uma função importante, controlando a dispersão e o extravio dos animais, escolhendo caminhos e pastagens mais seguras, reagrupando e conduzindo o gado para local seguro durante um ataque, ajudando ainda os cães de gado a afastar o predador. 

Pequenos ruminantes – cabras e ovelhas

Cabras – Serra da Arga. Foto: Bruno Arrojado

O tamanho do rebanho deverá ser adequado ao nível de proteção e às condições do terreno, sendo que rebanhos menores são mais fáceis de proteger. 

  • Os animais jovens devem ser recolhidos, pelo menos até ao primeiro mês de idade, uma vez que até essa idade os danos não são indemnizados.
  • A vigilância dos pastores é essencial para manter o rebanho junto e garantir uma eficiente proteção. Sempre que for mais difícil controlar os animais (p.ex., mau tempo, terreno acidentado, época das parições), a vigilância deverá ser redobrada.
  • Colocar chocalhos, em particular nos animais que se costumam afastar, para facilitar a sua localização.
  • O uso de cães de proteção de gado, em número adequado e bem educados, reduz eficazmente o número de ataques de lobo.
  • O confinamento noturno, num estábulo ou vedação à prova de lobo, reduz o risco de ataques no período noturno, quando os lobos estão mais ativos.

Bovinos em pastoreio extensivo

Vacas em pastoreio extensivo – Serra do Soajo (Arcos de Valdevez). Foto: Lemuel Silva

Em bovinos pastoreados em regime extensivo, uma boa gestão e seleção dos efetivos pode diminuir o risco de predação.

  • Manter as manadas com mais de 10 animais, uma vez que a maior parte dos ataques de lobo acontece a bovinos isolados ou a manadas com menos de 8 animais. Porém, manadas demasiado grandes são difíceis de gerir e proteger, devendo ser mantidas abaixo dos 100 animais.
  • Fazer a integração de novos animais de forma adequada, para que não se afastem do grupo principal, pois a maioria dos ataques a bovinos acontece a animais isolados.
  • Substituir as fêmeas com mais de 10 anos de idade pois o risco de predação das crias e das próprias fêmeas aumenta muito com a idade.
  • Recolher num estábulo ou vedação à prova de lobo os animais mais fracos, jovens (menos de 3 meses) e as fêmeas prestes a parir, uma vez que são mais vulneráveis aos ataques.
  • A presença de pastor e de cães de proteção de gado ajuda eficazmente a diminuir os ataques de lobo durante o pastoreio.
  • No Inverno, o pastoreio livre deve ser evitado, particularmente durante a noite.
  • Fechar todos os animais à noite, em estábulos ou vedações à prova de lobo, minimiza o risco de ataque por este predador.

Equinos em pastoreio livre

Cavalos em pastoreio livre – Parque Nacional da Peneda Gerês (Castro Laboreiro).  Foto: Bruno Arrojado

Os garranos, uma raça  autóctone de cavalo, são criados tradicionalmente nas serras do Norte do país, em regime de liberdade todo o ano, sem acompanhamento por pastor ou cães de proteção de gado. Para reduzir o risco de ataque é fundamental gerir bem o efetivo.

  • A circulação das manadas deve ser livre, por uma área de pastoreio extensa, permitindo que os animais se possam agrupar e selecionar o habitat para minimizar o risco de ataque.
  • Manter a dimensão das manadas em torno dos 10 animais, pois os ataques são mais frequentes a cavalos isolados ou a grupos com menos de 8 animais.
  • Fazer a integração de novos animais de forma adequada, para que não se afastem do grupo principal.
  • Não devem ser retirados machos e fêmeas adultos saudáveis, porque poderá interferir na estrutura social e na eficácia da manada para se proteger dos ataques de lobo.
  • É importante considerar a idade e experiência das éguas e dos garanhões, que têm um papel relevante na defesa da manada e na diminuição do risco de ataque às crias. Devem escolher-se garanhões mais velhos e experientes na proteção contra o lobo.
  • Substituir as fêmeas reprodutoras com idade avançada (> de 15 anos) pois o risco de predação das crias aumenta com a idade da progenitora.
Fontes:
Álvares et al. (2019) Manual de convivência com o lobo. ALDEIA/CIBIO/Município de Paredes de Coura.
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