CÃES VADIOS OU ASSILVESTRADOS

Os cães, principalmente os vadios ou assilvestrados, são outro importante fator de ameaça à conservação do lobo. Estes cães caracterizam-se por não terem dono (não há ninguém que se responsabilize por eles) e, muitas vezes, alimentam-se em lixeiras, podendo, inclusivamente, caçar e atacar animais domésticos. A sua ocorrência em territórios ocupados pelo lobo pode levar à transmissão de doenças, à competição por espaço e por alimento, ou mesmo à morte de lobos juvenis, quando atacados por matilhas de cães. 

Grupo de cães vádios/ assilvestrados no monte. Fonte: Istockphoto

Para além disso, como referido antes, estes cães podem atacar gado e espécies cinegéticas, ataques esses que, muitas vezes, são atribuídos ao lobo, contribuindo para aumentar o conflito com as comunidades rurais. Além disso, estes casos são, por vezes, motivo para o uso de veneno e de outros métodos ilegais de captura destes cães, podendo atingir o lobo e outras espécies de fauna.

Hibridação entre o lobo e cão

Uma outra ameaça que estes cães podem colocar à integridade da população é a possibilidade de poderem acasalar com o lobo. Com efeito, por serem animais muito parecidos, os acasalamentos entre cães e lobos dão origem a híbridos férteis.  Em populações estáveis de lobo, a ocorrência de hibridação não parece constituir um perigo, até porque nessas condições é relativamente frequente o consumo de cães pelo lobo. Porém, quando a população de lobo se encontra fragmentada e reduzida, a existência de cães vadios e/ou assilvestrados pode levar a taxas de hibridação elevadas, com o potencial de destruir a identidade genética do lobo. Esta situação é particularmente grave em Itália, por exemplo.

Em Portugal, apesar do grande número de amostras de lobo testadas geneticamente, foi confirmada a ocorrência de apenas dois eventos de hibridação. O primeiro foi registado em 2008 em Arcos de Valdevez (Cabana Maior), numa zona marginal da área de ocorrência do lobo. Este evento resultou em três indivíduos híbridos, confirmados geneticamente como sendo irmãos e fruto do acasalamento entre uma loba e um cão. Dois destes indivíduos foram identificados depois de terem sido encontrados mortos por atropelamento. O segundo evento foi registado em 2014, com a recolha do cadáver de uma cria híbrida, em S.Pedro do Sul (Serra da Arada). Nesta região têm havido avistamentos posteriores de lobos com características atribuíveis a híbridos e de grupos mistos, compostos por lobos e cães, mas que não foram confirmados geneticamente.

Lobos mortos por atropelamento e confirmados genéticamente como sendo híbridos - Arcos de Valdevez - 2008


Lobo híbrido – Arcos de Valdevez. Foto: Nuno Santos

Lobo híbrido – Arcos de Valdevez. Foto: Nuno Santos

Lobo avistado na Serra da Freita com características atribuíveis a híbrido - S. Pedro do Sul - 2018

Possível lobo híbrido – S. Pedro do Sul. Foto: Carlos A. Sousa

Grupo misto composto por um lobo e vários cães - Oliveira de Azemeís - 2019

Lobo-ibérico com cães – Oliveira de Azeméis: Fotos/Vídeo: Simão Ribeiro

Recomendações para a gestão de cães vadios

De forma a limitar eficazmente a população de vadios e/ou cães assilvestrados, torna-se importante assegurar a aplicação efetiva da legislação em vigor referente à posse e circulação de cães, implementar medidas para prevenir o abandono de cães e promover a gestão correta das lixeiras e vazadouros, ainda acessíveis, bem como intensificar o controlo dos cães vadios ou errantes e de cães assilvestrados. 

É fundamental alertar a comunidade em geral e as entidades responsáveis para as implicações da existência destes cães, tanto em termos ecológicos, como económicos e de saúde pública. Com efeito, estes cães são muitas vezes responsáveis por ataques a pessoas e, inclusive, a outros cães com dono.

Fontes:
Álvares et al. (2015) Situação de referência para o Plano de Ação para a Conservação do Lobo-Ibérico em Portugal. ICNF/CIBIO-INBIO/CE3C/UA.
Godinho et al. (2011) Genetic evidence for multiple events of hybridization between wolves and dogs in the Iberian Peninsula. Molecular Ecology 20, 5154-5166.
Muller et al. (2011) Domestic dog origin of canine distemper virus in freeranging wolves in Portugal as revealed by hemagglutinin gene characterization. Journal of Wildlife Diseases 47, 725‐729.
Ribeiro (1996) A problemática dos cães vadios na conservação do lobo em Portugal: Estudo da situação dos cães vadios em Portugal e caracterização do comportamento predatório do cão e do lobo. Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Torres et al. (2017) Hybridization between wolf and domestic dog: First evidence from an endangered population in central Portugal. Mammalian Biology 86, 70–74.
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